A morte de um policial militar na madrugada desta quarta-feira evidencia que a violência continua presente na Rocinha, apesar da grande presença policial na comunidade, como antecipou na terça-feira(3) o Jornal do Brasil.
O cabo Rodrigo Alves Cavalcante, do Batalhão de Choque do Rio de Janeiro, morreu após ser baleado durante patrulhamento na parte alta da Favela da Rocinha, na madrugada desta quarta-feira. O policial foi emboscado por quatro homens, que dispararam contra a vítima.
Outros policiais que participavam da patrulha trocaram tiros com os bandidos, que fugiram. Cavalcante ainda foi levado com vida ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu aos ferimentos.
Desde fevereiro, essa é a nona morte registrada na Rocinha, ocupada pelas forças de segurança desde novembro do ano passado, após a prisão do então chefe do tráfico de drogas Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem.
Há decadas, moradores da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, considerada a maior favela urbana da América do Sul, convivem diariamente com homens armados circulando pela comunidade. Antes, as armas eram empunhadas pelos traficantes; após a ocupação pela polícia, em novembro do ano passado, para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o armamento pesado agora é visto nas mãos dos policiais militares que patrulham o local. Os moradores, no entanto, continuam a se sentir intimidados, o que evidencia que, apesar da ação promovida pelo Governo do Estado, a comunidade ainda está longe de ser considerada, de fato, pacificada.
Desde o início da ocupação, a Rocinha contava com a presença de 180 policiais militares, mas nos últimos 15 dias o efetivo na comunidade praticamente dobrou com a chegada de mais 170 policiais. O reforço está relacionado ao aumento na presença de turistas e cariocas, curiosos em conhecer de perto a favela, e também à recente onda de violência, que nos últimos dois meses deixou nove mortos na comunidade.
Na madrugada de domingo (1º), na localidade conhecida como Via Ápia, um homem, identificado como Alexandre de Cunha Fernandes, foi baleado e chegou a ser socorrido por policiais, mas morreu no Hospital Miguel Couto, no Leblon. Na semana anterior, Vanderlan Barros de Oliveira, presidente de uma associação de moradores da Rocinha, também foi assassinado. Feijão, como era conhecido, foi executado na segunda-feira (26), com tres tiros nas costas, ao deixar a sede da associação, no meio da tarde. Estes fatos reforçam que a violência continua fazendo parte do dia a dia de quem mora na região.
Os moradores ainda se sentem desprotegidos, e reclamam que apesar do forte policiamento, o clima de violência aumentou. Há uma certa perplexidade na comunidade, entre os trabalhadores, como explica uma moradora que se identificou apenas como Julia:
“Antes não tinha roubo, não tinha assalto como agora. A violência acontecia de forma isolada.”
Um outro morador destaca que, mesmo com o policiamento ostensivo, as drogas continuam circulando da comunidade.
“O tráfico só não está tão à mostra. Você vê a polícia na base, nas ruas principais. Mas procura a polícia pelas vielas.. Não vai achar”, afirma o homem, que não quis se identificar.
Até a policia admite que a ocupação, que teve início há cerca de quatro meses, ainda não foi capaz de impedir que as drogas continuem a ser vendidas na Rocinha. Contudo, com um discurso que se repete em todas as regiões onde este tipo de operação é realizada, o tempo é apontado como artigo essencial para que este objetivo seja alcançado:
“A gente sabe que ainda tem tráfico. É que nem gato e rato, nós vamos avançando e eles vão se escondendo cada vez mais”, diz um soldado do Batalhão de Choque.
Após três meses de ocupação, muitos moradores ainda não se acostumaram com a grande presença policial nas entradas e ruas da favela, e carregam um sentimento de intimidação.
"Eu preferia antes. Os policiais também respeitam os moradores, mas os bandidos respeitavam muito. Interferiam menos no nosso dia a dia", confessa a comerciante que se identificou apenas como Elaine. "No fim das contas, as crianças continuam crescendo rodeadas de armas", conclui.
Procurados pelo JB, a Cordenadoria de Comunicação Social da Polícia Militar afirmou que o principal foco da pacificação da Rocinha é a retomada do território. Segundo a PM, até meados de março foram presas 61 pessoas. Também foram apreendidos 59 fuzis e 36 pistolas, além de 297 motocicletas irregulares. Espera-se que essas apreensões tenham impacto no redução de índices de criminalidade, pois poderiam ser utilizadas para assaltos.
A comunicação da PM informou que o major Edson Santos, coordenador do policiamento da Rocinha, terá até sexta-feira um total de 700 homens para dar sequencia ao processo de pacificação daquela comunidade até a implantação da UPP – ainda sem dataprevista. O oficial informou hoje que a ideia é manter o policiamento no entorno com viaturas e motocicletas mas também investir no patrulhamento a pé de vielas, becos e ruas menores, onde veículos motorizados não alcançam.
“Com isso esperamos em pouco tempo ter mais proximidade da população. Precisamos do apoio dos moradores, inclusive com informações sobre a presença de criminosos”, disse o major.
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